Curso de Estudo Bíblico: De Gênesis a Jesus – Final da Lição 1


The garden of Eden with the fall of man, by Jan Brueghel de Elder and Peter Paul Rubens

O Velho e o Novo Testamento

Vamos nos antecipar um pouco: O ponto chave para o que temos dito até agora, no início da Lição 1 (postada aqui), é, em resumo, o seguinte: A Bíblia conta a História da Salvação. A História da Salvação é a história da maravilhosa obra de Deus, desde a criação do mundo, a todos os homens e mulheres e seus filhos, fazendo da família da humanidade, a família de Deus. Ele fez isso através de uma série de alianças com figuras-chave, em pontos-chave da Bíblia. Estas parcerias-chave serviram como um esboço de toda a Bíblia. Se sabemos e entendemos isso, teremos um bom entendimento da “trama” da Bíblia. No final deste curso para iniciantes, eles poderão conhecer e compreender as alianças.

Nós só precisamos de um pouco mais informação antes de abrirmos o Livro Sagrado e lê-lo. Precisamos saber por que a Bíblia é dividida em Antigo e Novo Testamento. Muitos cristãos tendem a ignorar o Antigo Testamento porque se passou antes de Jesus. Mas quando entendem que a História da Salvação começou com a criação do mundo, no Velho Testamento, e progrediu através de uma série de alianças, passam a entender porque o Antigo Testamento é tão importante. A divisão da Bíblia para o Antigo e Novo Testamento é muito mais do que uma demarcação literária ou histórica. Lembre-se que “testamento” é apenas uma palavra sinônimo de “aliança”. Tudo o que acontece no Antigo Testamento prepara o palco e anuncia o que vai acontecer no Novo Testamento. Cristo e sua Cruz, são a dobradiça entre o Antigo e o Novo Testamento. Todas as alianças de Deus no Antigo Testamento encontram a sua realização, o seu sentido pleno, em Jesus, em sua “Nova Aliança”.

IV. Começando pelo começo: uma introdução à Genesis e à História da Criação

Agora estamos prontos para começar a ler a Bíblia. Vamos começar do início com o Gênesis. A melhor maneira de começar é lendo Gênesis, capítulo um agora. Assim estaremos preparados para o que se segue. Muitas vezes as pessoas lêem a história da criação pensando sobre o “conflito” entre religião e ciência. No entanto, a leitura de Gênesis dessa forma implicaria impor a perspectiva da nossa situação histórica ao texto, e perder as pistas literárias que revelam o sentido “religioso” que História tinha para a antiga Israel, e o sentido religioso que Deus queria comunicar agora no século 21.

Gênesis 1, 2 nos diz que no princípio a terra era  “sem forma e vazia”. O intuito aqui é mostrar que Deus fez o mundo, primeiro moldando-o e depois preenchendo-o. Nos três primeiros dias, Deus criou a “forma” ou “âmbitos” da Terra: dia e noite;  céu e mar;  solo e plantas. Nos dias 4-6, Deus “enche” esses reinos  com “orientadores” ou “regentes”: o sol, a lua e as estrelas (que iriam governar o dia e a noite, Gênesis 1, 14-19); aves e peixes que enchem o céu e mares; e homens e animais no chão. Há uma perfeita ordem em tudo isso. Primeiro Deus cria a “estrutura” do mundo, então a preenche com os seres vivos. É como fazer uma casa e nela colocar seus habitantes. E cada um dos dias também estão em concordância com este plano: No primeiro dia, Deus criou o dia e a noite. No quarto dia, cria aqueles que irão “governar” os reinos do dia e noite: o sol, a lua e as estrelas. No segundo dia, faz o céu e o mar. No quinto dia, o céu e o mar são dadas à aqueles que vão para governá-los: peixes e aves. No terceiro, terra e vegetação são criados. No sexto dia, os animais e os primeiros seres humanos e recebem domínio para reger a terra. Após cada dia da criação, Deus vê que sua Obra é “Boa”. Depois de seis dias trabalho Deus vê o seu trabalho e diz que ele é “muito bom”. A palavra “muito” marca o fim do ciclo criação porque Deus termina de criar os reinos e aqueles que irão governá-los.

A Palavra e o sábado

Notemos outra coisa ao ler esses primeiros versículos da Bíblia. Como é que Deus cria? Pronunciando Sua palavra.  Ele diz: “Faça-se …” e as coisas se fazem. Sabemos, através da leitura do Antigo Testamento à luz do Novo, que a Palavra de Deus, pela qual Ele criou o mundo é Jesus (cfr. Jo 1, 1-3; Col 1: 16-17). Algo para se lembrar, não só na leitura da Bíblia, mas também na Missa, é que a palavra Deus é eficaz, ela faz coisas. Sua Palavra faz o que diz. Quando Deus diz: “Faça-se luz”, sua Palavra cria a luz, realmente. A Palavra de Deus realiza o que Ele diz. Esse mesmo poder da Palavra de Deus trabalha nos sacramentos da Igreja.

Quando o sacerdote repete as palavras de Jesus: “Este é o meu Corpo”, o pão torna-se o Corpo de Cristo. Quando o sacerdote diz as palavras de Jesus: “Eu te absolvo” ou “eu te batizo”, essa Palavra cria a realidade da qual se fala. O poder criador da Palavra de Deus é uma das coisas mais importantes a se aprender a partir deste primeiros versículos do Gênesis. É interessante notar que pode haver uma sugestão da doutrina da Santa Trinidade nestes primeiros versos.

Há três atores Divinos: Deus, Sua Palavra e do Espírito (“Pneuma Theos”) que pairam sobre a superfície das águas (Gen 1, 2).  É também digno de se notar que Deus fala de Si mesmo na segunda pessoa do plural: Façamos (nós) o homem à NOSSA imagem e semelhança” (Gn 1, 26-27).  Por que não dizer, “Faço o homem à minha imagem?” Não sabemos como responder à essa pergunta. Os Santos e estudiosos têm refletido sobre isso há séculos. Menciono aqui porque trata-se de uma pista daquilo que Jesus revelou mais tarde: que Deus é três Pessoas divinas em um só Deus: Pai, Filho e Espírito Santo (Mateus 28:19).

No sétimo dia, Deus descansa e abençoa sua criação. É o segundo capítulo do Gênesis (cfr. Gn 2, 2-3). Deus não está cansado. Este descanso cósmico e bênção é o primeiro ciclo de alianças que vamos ver na Bíblia. Deus, pelo fato de estabelecer o sábado, está fazendo uma aliança com a sua criação e especialmente com toda a humanidade, representada pelo homem que Ele criou à sua imagem e semelhança. Isto é o que Jesus parece estar se referindo quando ele diz: “O sábado foi feito para o homem, e não homem para o sábado “(Mc 2, 27-28).

Faz sentido. Deus não criou o mundo sem uma razão, como algo completamente separado Dele. Ele cria o mundo e a família humana por amor. O sábado é o sinal dessa aliança e amor. Então Deus, quando dá o sábado e a Lei ao povo de Israel, diz que o sábado é “uma aliança perpétua” (cf. Ex. 31, 16-17). É por isso que o Catecismo chama a História da Criação de “o primeiro passo para a Aliança, como o primeiro e universal testemunho do amor de Deus Todo-Poderoso” (CCC 288). A palavra hebraica para fazer um juramento é “Sabá”, derivada de “sete” em hebraico. Nessa linguagem, jurar (ou fazer uma aliança) é “levar sete” (cf. o juramento de Abraão, em Gen. 21, 27-32). Então, o que Deus parece fazer com o sétimo dia não é tanto um “descanso”, mas introduzir uma aliança eterna com a criação. E esse padrão de alianças continua por toda a Bíblia. Enquanto se lê a História da Criação de acordo com o conteúdo e à unidade de toda a Bíblia, vemos uma outra característica da História da Criação que chama a atenção. A História da Criação fala da criação como a construção de um templo, um lugar Santo onde Deus habita e se reuni com suas criaturas. Como no templo que mandou fazer em Jerusalém, o “templo” da criação é um lugar sagrado onde Ele habita e onde homens e mulheres irão oferece-Lo adoração e sacrifício.

No livro de Jó, capítulo 38, a criação do mundo é descrita como a construção de um templo. Na verdade, se compararmos o relato da criação com os que apresentam a construção da Tenda do Encontro e do Templo, vemos que ambos os locais sagrados são descritos em termos muito semelhantes aos utilizados para a criação do mundo. Por exemplo, quando Moisés construiu a tenda da revelação, Deus fala 10 vezes ( “e o Senhor disse a Moisés … “). Não é por acaso que Deus falou 10 vezes em Gênesis ( “Faça-se …”),  e há outros paralelos. Deus vê que a sua criação é boa (Gn 1, 31). “Moisés viu todo o trabalho e achou que tinha feito de acordo com o que o Senhor tinha ordenado” (Ex 39,43; Gn 2,1; Ex 39,32; Gen 2, 2 e Ex 40, 33). Deus abençoa e santifica o sábado quando termina e Moisés abençoa a “Morada” (cf. Gn 2, 3; Ex 38:43; 40, 9).

As duas narrativas se concluem falando sobre a santidade do sábado (Gn 2, 2-4; Ex 31, 12-17). O mesmo é visto em 1 Reis 6-8, que descreve a construção do Templo. O Rei Salomão consagra o Templo, no sétimo mês, no sétimo dia de uma festa de sete dias, orando sete petições. Mais uma não tão sutil alusão à História da Criação.

Como o Espírito “pairava” sobre a água, o Espírito de Deus encheu o Templo de Salomão (1 Rs 8, 10), como fez na Morada (cf. Ex. 40:35), No templo, o santuário ou “Santo dos santos”, contido na presença de Deus, fazendo sua quarto, o mais santo dos lugares. Na história da criação em Gênesis, o Jardim do Éden, onde Deus colocou o homem e a mulher, é descrito em termos semelhantes aos utilizados para descrever os recintos internos deTemplo. No Jardim entrava-se a partir do leste, como o santuário do Templo. Os querubins colocados por Deus para guardar a entrada do jardim assemelham-se ao Templo de Salomão (cf. Gen 3,24; Ex. 25, 18-22,26-31; 1 Reis 6, 23-29). Deus “passeia” através do jardim (Gn 3, 8). Como está presente no santuário do Templo (cf. Lv26: 11-12; Dt 14:23; 2 Samuel 7: 6-7). Veremos paralelos na próxima lição sobre a criação e a queda do homem e mulher.

Leia a continuação AQUI

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Sobre Hellen

Católica militante, expatriada, mãe e arquiteta e estudante de Direito. Quando há tempo, engajada na "missão" de defender a fé católica e evangelizar aos irmãos católicos, especialmente aqueles afastados da Santa Fé . I am an expat architect, law student and Catholic mommy who's taken on blogging. I've doing this for a few years now and I'm totally hooked up. All for the Glory of God!
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11 respostas para Curso de Estudo Bíblico: De Gênesis a Jesus – Final da Lição 1

  1. Priscila Juliane disse:

    Meus parabéns pela iniciativa! Descobri seu blog por um acaso, e estou maravilhada com suas partilhas! Que o Senhor abençoe você, um abraço!

    Curtido por 1 pessoa

  2. A paz, Hellen!
    Parabéns pela iniciativa ao levar esse estudo!
    Irei compartilhá-los em meu Facebook.

    Deus abençoe.

    Janislei Fernandes.

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  3. Rubens Gabriel de Oliveira Junior disse:

    Olá Hellen! Obrigado por levar adiante a iniciativa de expor este curso bíblico!
    Estamos em grande expectativa pelos próximos post,
    Deus te abençoe, assim como nos tem abençoado aqui!

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  4. Sandra Martinelli disse:

    Que riqueza de texto, ansiosa para ler a próxima lição. Deus abençoe.

    Date: Sat, 23 Jul 2016 14:56:37 +0000 To: s.regina.v.barreto@hotmail.com

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  5. Regina disse:

    Que riqueza de estudo,ansiosa para ler o próximo post,Deus abençoe.

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    • Regine selma da hora de jesus disse:

      Olá, amiga irmã gostei muito das suas postagens. Uma verdadeira riqueza da Igreja católica. Nossos irmão batizados precisam tomar posse desta riqueza, pois muitos estão se perdendo no protestantismo por falta de conhecimento da palavra de Deus.
      Tenho utilizado alguns textos destes para catequese de adultos. Maravilhoso,Deus te abençoe,aguardo uma resposta da sua equipe. Um grande abraço de Paz e Bem.

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