A Santa Ceia sob a perspectiva do Antigo Testamento


O Papa Bento XVI abordou na tarde desta Quinta-Feira Santa o sentido da Última Ceia de Jesus.

Na homilia da Missa da Ceia do Senhor, Bento XVI começou por falar dos sinais e do sentido da Páscoa judaica, explicando que esta celebração “oferecia uma ponte do passado para o presente e rumo ao futuro”.

A libertação que Israel celebrava, todavia, “não estava completa” e, no tempo de Jesus, a celebração da Páscoa era também uma súplica pela “liberdade definitiva”.

O próprio Jesus celebrou esta ceia de “múltiplos significados”, com os seus, e é nesse contexto que se deve compreender a “nova Páscoa”, oferecida na Eucaristia.

“No centro da Páscoa nova de Jesus estava a Cruz. Dela vinha o novo dom por Ele trazido, que permanece sempre na Santa Eucaristia, na qual podemos celebrar com os Apóstolos, ao longo dos tempos, a nova Páscoa”, disse.

O Papa recordou as palavras de Jesus “ninguém me tira a vida, sou eu que a dou”: “a haggadah pascal, a comemoração do agir salvífico de Deus, tornou-se memória da cruz e da ressurreição de Cristo”, uma memória que não se limita a recordar o passado, mas que “nos atrai para a presença do amor de Cristo”.

Assim, prosseguiu, a berakha, oração de bênção e agradecimento de Israel, “tornou-se a nossa celebração eucarística, em que o Senhor abençoa os nossos dons, pão e vinho, para dar-se nele a si mesmo”.

“Rezemos ao Senhor para que nos ajude a compreender cada vez mais profundamente este mistério maravilhoso, a amá-lo cada vez mais”, indicou.

“Peçamos ao Senhor – disse o Papa a concluir -que nos ajude a não guardar a nossa vida para nós, mas a dá-la a Ele e desta maneira trabalhar juntamente com Ele para que os homens encontrem a vida, a vida verdadeira que pode vir somente daquele que é, Ele mesmo, a Verdade e a Vida”.

Logo após a homilia, Bento XVI cumpriu o rito do lava-pés a 12 representantes dos movimentos laicais da Diocese de Roma. Num gesto de solidariedade, o ofertório desta celebração foi destinado, por vontade do Papa, para a ajudar o dispensário médico de Baidoa, na Somália, dirigido pela Cáritas local.

Ceia Pascal Judaica e as práticas da Comunidade de Qumrân

O Papa falou da “aparente contradição” entre os relatos do Evangelho de João e o dos Sinópticos. No primeiro, Jesus morre na véspera da Páscoa (na hora em que eram imolados os Cordeiros no templo de Jerusalém) e, nos outros três Evangelhos, a Última Ceia é apresentada como uma ceia pascal nesse mesmo dia (que Jesus não poderia celebrar se tivesse morrido à hora indicada por João), na sua forma tradicional, mas com a novidade do “dom do seu corpo e do seu sangue”.

Abandonando a hipótese de dar um sentido “simbólico” à data apresentada no Evangelho segundo João, o Papa indicou que a descoberta dos escritos de Qumrân, a meio do século XX, ofereceu “uma possível solução convincente”, embora a mesma ainda não seja aceite por todos.

“Jesus derramou o seu sangue, de fato, na véspera da Páscoa e na hora da imolação dos cordeiros. Ele celebrou, contudo, a Páscoa com os seus discípulos, provavelmente segundo o calendário de Qumrân, por isso, pelo menos, um dia antes”, indicou.

Qumrân é um local da Palestina, na margem noroeste do Mar Morto, 13 km ao sul de Jericó, onde viveu uma comunidade de ascetas judeus (possivelmente essénios). Nos arredores foram encontrados, entre 1947 e 1956, muitos manuscritos escondidos em grutas, dum período estimado entre 200 anos antes da era cristã e cerca de 100 anos depois. A descoberta do espólio permitiu conhecer este grupo religioso, de vida monástica e forte ascetismo.

Nesta comunidade havia um modo de interpretar a Escritura (e as normas legais) diferente do habitual entre saduceus e fariseus. Quanto à Páscoa, disse o Papa, “Jesus celebrou-a sem cordeiro, como a comunidade de Qumrân, que não reconhecia o templo de Herodes e esperava um novo templo”.

“Jesus, portanto, celebrou a Páscoa sem cordeiro – não, não sem cordeiro: em vez do cordeiro, ofereceu-se a si mesmo, o seu corpo e o seu sangue”, prosseguiu.

Nesta Páscoa “sem cordeiro e sem templo”, Jesus era “o próprio Cordeiro, o verdadeiro, como tinha preanunciado João Batista no início do ministério público de Jesus”, e era “o verdadeiro templo, o templo vivo em que Deus habita e no qual nós podemos encontrar Deus e adorá-lo”.

“O seu sangue, o amor daquele que é, ao mesmo tempo, Filho de Deus e verdadeiro homem, um de nós, esse sangue pode salvar. O seu amor, esse amor em que Ele se dá livremente por nós, é isso que nos salva”.

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