
Tu és Pedro
Uma das doutrinas mais rejeitadas pelos irmãos protestantes é precisamente a doutrina do primado de Pedro. Por isso nós Católicos somos insistentemente questionados:
“Mas onde Jesus chama a Pedro de “Papa” , “chefe dos Apóstolos”, “infalível”, onde?
Se quisermos tomar uma postura defensiva no diálogo com os protestantes, certamente seria pertinente trazer à tona algumas outras perguntas, como: “Onde a Bíblia diz que Deus é uma Trindade?” ou “Onde a Bíblia diz haver mudado o sábado para o dia de domingo”? , “Onde ela disse isso”? …. Porém, ai é onde cabe ao bom católico dar conta de sua fé.
E para responder a esta pergunta, devemos primeiro entender o que é a essência do papado, porque senão jamais se entenderá de onde sai o papado na Bíblia.
Onde Jesus chama a Pedro de “Papa”, “Chefe dos Apóstolos” , “infalível”? A resposta é clara e simples: Em lugar algum!
Sim, em lugar algum! Assim como em lugar algum lemos a palavra Trindade, Encarnação, ou uma encontramos uma lista dos livros que fazem parte do cânone da Sagrada Escritura e muitos outros temas que os protestantes em geral aceitam sem contestar. Os Católicos percebem que no testemunho das Escrituras, da Revelação Divina, encontram-se verdades implícitas e explícitas, e sobre muitas delas o entendimento da Igreja e do povo de Deus tem sido ampliado e aprofundado ao longo do tempo. Portanto, na medida que a Igreja aumenta sua compreensão, assim como essa compreensão tem sido enriquecida ao longo do tempo, mais precisamente se expressa o que a Igreja sempre acreditou e acredita. Daí segue-se que hoje chamamos o sucessor do ministério exercido pelo apóstolo Pedro de “Papa”, do mesmo modo compreendemos que Deus tenha Se revelado em três Pessoas divinas pela “Santíssima Trindade”.
O problema do protestante é levantar a questão errada. A doutrina do papado não depende da terminologia, nem o estilo como ela tem sido praticada ao longo da história. Não importa o nome, mas o ofício!
A doutrina do papado
Hoje, nós poderíamos ou não chamar ao sucessor de Pedro, ou a todo bispo de Roma, de ”Papa”, poderíamos nos referir a ele de outra forma e isso não mudaria a essência do papado. O que realmente importa não é a terminologia usada para definir o ofício papal, mas o que a terminologia se destina a explicar. A doutrina do papado tampouco depende do estilo o qual ela tem sido exercida ao longo da história
Muitos protestantes alegam não “encontrar” um Papa nos primeiros séculos cristãos porque não compreendem a essência do papado. Se a pesquisa estiver focada em alguém carregando o título de “Papa”, com roupas bonitas, olhar pomposo e quase ditatorial, exigindo que todos os cristãos sigam suas ordens - esta é a imagem que a maioria dos protestantes têm do Papa ou bispo de Roma – obviamente não o encontrarão. Vale a pena ressaltar o comentário do apologista católico Mark Bonocore:
“Nós não vamos dizer que a perspectiva protestante não tenha absolutamente nenhuma validade. Pelo contrário, é verdade dizer que os Papas de Roma por vezes têm exercido um estilo autocrático e ditatorial na história cristã. No entanto, o estilo do papado não define o próprio papado, nem define sua existência na Igreja primitiva.”
Assim, não devemos ter dificuldade em aceitar que o papado existira, mas sim que tenha mudado e evoluído, na medida que a Igreja teve que enfrentar diversos desafios e situações históricas. O papado própriamente dito ( e devidamente definido) existe desde o momento em que Cristo confiou a Pedro alimentar as ovelhas e cordeiros de seu rebanho, e entregou-lhe as chaves do reino dos céus.
Então, qual é a essência do papado, para que possamos reconhecer mais de Escritura e Tradição? Mark Bonocore nos dá um conceito muito concreto e resumido:
“O papado é o ministério do Pastor supremo o qual tem poder e jurisdição para manter a unidade universal e ortodoxia dentro da Igreja Cristã”.
Será que este ministério exercido por Pedro, e então o bispo de Roma, desde os primeiros séculos do cristianismo continua até hoje? Aqui, respondemos sem hesitação que sim!
A essência o exercício do papado nas Escrituras
Se houveram dias importantes na vida de Pedro, um deles foi certamente o dia em que Jesus deu-lhe um novo nome. E talvez argumente o protestante crítico, que alterar o nome de alguém não significa muito. Afinal, nos dias de hoje qualquer um muda de nome, por exemplo, os artistas o fazem antes de iniciar sua carreira para melhor se ajusterem ao “show business”, outros simplesmente porque estão zangados com a escolha de seus pais desejando, assim, mudarem de nome. No entanto, os nomes antigos tinham uma profunda importância, e muito mais quando o próprio Deus é quem o muda para algo que até então não fora cedido a ninguém. Esta mudança de nome é acompanhada por uma mudança profunda na vida da pessoa, um novo recurso, uma nova identidade.
Então, se nós revisarmos brevemente a Bíblia vamos encontrar algumas mudanças fundamentais de nome: Abrão para Abraão em Gênesis 17,3-6 (porque seria “pai das nações”), Sarai para Sara em Gênesis 17,16 (“Mãe dos Reis” “Princesa frutífera”) Jacó para Israel, em Gênesis 32,28 (para “lutou com Deus e os homens e venceu”), e até mesmo o próprio nome de Jesus em Mateus 1,21 (Salvador de Deus, porque as pessoas iriam salvar-se dos seus pecados).
Como com eles, ocorreu com Simão. Quando Jesus se encontrou com seus discípulos e perguntou: “Quem dizem os homens que Eu sou? Como sempre, assumindo a liderança sobre o resto dos discípulos, Simão é rápido para responder: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”…
Muito boas foram as palavras de Simão, porque o que ele tinha revelado não o fora revelado por “nenhuma carne e sangue, mas pelo Pai nos céus”. E não poderia errar, porque sua confissão foi o produto da revelação divina. Revelou, em poucas palavras, a identidade de Cristo, o verdadeiro filho de Deus. Jesus devolve o gesto e respostas com o que seria a nova identidade de Simão, o cargo para o qual ele o tinha escolhido, entregue com um novo nome:
“E eu, por sua vez digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” [Mateus 16,18]
Essa mudança é consumada com grande sucesso na vida de Simão. Cristo o deu um novo nome: “Pedra”, e disse-lhe que em que sobre esta Pedra Ele construiria a Sua Igreja. E com um novo nome surge um novo ministério, por isso Pedro naquele dia, também recebeu as ‘chaves’ do céu:
“Eu te darei as chaves do reino dos céus, e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado no céu.” “[Mateus 16,19]
A semelhança destas palavras e a profecia de Isaías que coloca um novo governante sobre o reino de Judá é impressionante:
“Naquele dia chamarei meu servo Eliaquim, filho de Helcias. 21. Revesti-lo-ei com a tua túnica, cingi-lo-ei com o teu cinto, e lhe transferirei os teus poderes; ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá. 22. Porei sobre seus ombros a chave da casa de Davi; se ele abrir, ninguém fechará, se fechar, ninguém abrirá; 23. fixá-lo-ei como prego em lugar firme, e ele será um trono de honra para a casa de seu pai.” Isaías 22: 21-23
Portanto, realmente não foi coincidência que Jesus tenha usado estas palavras, mas intencionalmente chama a atenção para o contexto desta profecia, onde um ‘mordomo’ ou ’administrador’ novo (Eliaquim) está sendo colocado no reino de Judá. A figura do mordomo era muito conhecida porque era um servo a quem o rei entregou as chaves.
O texto de Isaías mostra-nos mais das funções exercidas pelo administrador, um ministro a serviço do rei com a mais alta autoridade subordinada apenas ao rei, e com um papel de paternidade espiritual: “ele é um pai para os moradores da Jerusalém e à casa de Judá”.
Eliaquim não era realmente um precedente nessa posição. Já em Abraão isso ocorrera com um mordomo (Eliezer de Damasco), demonstrando que mesmo naquele tempo a figura do mordomo já era uma figura familiar. Mais tarde José (filho de Jacó), quando foi vendido como escravo e levado para o Egito, tornou-se administrador de Potifar em sua casa:
“Assim José achou graça em seus olhos, e servia-o e ele o fez mordomo da sua casa e na sua mão tudo o que tinha” [Génesis 39:4]
Veio mais tarde a ser gerente na casa de Faraó:
“E disse em seguida a José: “Pois que Deus te revelou tudo isto, não haverá ninguém tão prudente e tão sábio como tu. Tu mesmo serás posto à frente de toda a minha casa, e todo o meu povo obedecerá à tua palavra: só o trono me fará maior do que tu. “disse Faraó a José:”. Vês, disse-lhe ainda, eis que te ponho à testa de todo o Egito’”[ Génesis 41:39-41]
E assim por diante, encontramos inúmeras referências a mordomos nos reinados de Judá e de Israel ao longo dos séculos em 1 Reis 4.6, 16.9, 18.3, 2 Reis 10.5, 18,18.37, 19,2, 2 Crônicas 28.7, Isaías 22,15, 36,3.22; 37,2. O importante é que em todos estes casos, em cada reino, apenas um mordomo receberia plena autoridade depois do rei, para tomar decisões que nenhum outro ministro do reino poderia revogar”, ou seja, abras, e ninguém fechará, feches e ninguém abrirá.”
Jesus é o herdeiro do trono de Davi, assim de acordo com os meios habituais, seleciona um ‘mordomo’ real sobre o seu reino. É nesta ocasião especial, onde Jesus designa Pedro como ”Papa”, porque é na entrega das chaves a Pedro como ‘mordomo’ do reino dos céus, que se capta a essência do ministério petrino.
Visto desta perspectiva, percebe-se muito claramente porque Pedro está listado como a pedra sobre a qual está construída a Igreja. Cristo usa uma metáfora que compara a igreja com uma casa espiritual, onde os cristãos são declarados como parte do edifício. Como todos os edifícios, nem todos os blocos estão no mesmo lugar e nem todos têm a mesma função, assim na Igreja Cristã seus ministérios têm funções diferentes. Pedro, ocupando um ministério especial como ‘mordomo’ do reino, e chefe do colégio apostólico figura como a pedra sobre a qual está construída a Igreja, como com Pedro, outros apóstolos estão contidos em outras metáforas sobre a fundação da Igreja (Efésios 2,20) .
Porém nossos amigos protestantes seguramente hão de contestar:
“Se para os católicos a igreja está construída sobre “Pedro” e não “Cristo”, vocês estão em erro”!
O erro é que eles não entendem em que sentido Pedro é a pedra de Mateus 16:18. Pedro é a rocha sobre a qual é construída a autoridade estabelecida por Jesus Cristo para governar a Igreja, enquanto que a confissão de fé é o fundamento doutrinário do mesmo. Quando os protestantes não fazem qualquer distinção entre os dois, desfigurando a posição católica, julgam que nós colocamos a nossa fé em “um homem” e não em Cristo.
Mais adiante, não podemos misturar e combinar as três diferentes metáforas usadas para a palavra ’rocha’ nas Escrituras. Argumentar que ”Pedro não pode ser a pedra, porque Deus é a ‘rocha’ não faz mais sentido do que afirmar que ’Abraão’ não pode ser a ‘rocha’ porque Deus é a rocha. São três diferentes metáforas. Nenhuma incompatível com as outras. Deus é a rocha da nossa salvação, Pedro é a rocha sobre a qual está construída a Igreja, Abraão é a rocha da qual o povo judeu foi lavrado. Nenhuma dessas metáforas está em conflito.
O exercício do papado na história
No início destas reflexões, disse que, embora a essência do papado tenha sido sempre a mesma, seu estilo mudou ao longo da história, de modo que a Igreja enfrentou vários obstáculos e desafios.
Quando os apóstolos estavam vivos e eram guiados diretamente pelo Espírito Santo, o exercício do ministério petrino consistiu principalmente de liderança. Ai é onde vemos Pedro como um representante do resto dos apóstolos receber ordens de Cristo para apascentar o rebanho do povo de Deus.
“Depois de comer, Jesus perguntou a Simão Pedro:” Simão, filho de João, tu amas-me mais do que estes? “Ele respondeu:” Sim, Senhor, tu sabes que Te amo. “Jesus disse:” Apascenta os meus cordeiros. “Ele disse-lhe uma segunda vez,” Simão, filho de João, tu me amas? “Ele respondeu:” Sim, Senhor, Tu sabes que eu Te amo. “Jesus disse:” Apascenta as minhas ovelhas. “conta a terceira vez “Simão, filho de João, amas-me?” Pedro entristeceu-se que ele lhe perguntou pela terceira vez: “Tu me amas?” e disse: “Senhor, Tu sabes tudo e sabe que eu Te amo.” Jesus disse: “Apascenta as minhas ovelhas.” [8]
Este texto é bastante notável, porque, enquanto o trabalho de alimentação do rebanho não é só de Pedro, mas todos os pastores, aqui Cristo dirige-se apenas a Pedro. Pedro é incumbido não apenas do trabalho de pastorear as “ovelhas”, mas também os ”Inocentes” (o restante dos apóstolos). Note que Jesus se refere aos outros apóstolos quando pergunta “Tu me amas mais do que estes?”
É também por aqueles que crêem a quem Satanás pede ”vos peneirar como trigo” [Lucas 22,31], mas Jesus ora para que a fé de Pedro não desfaleça [Lucas 22,32]. Porém o mais importante de tudo isso é que foi a Pedro quem Cristo confiou confirmar os seus irmãos (os apóstolos) na fé [Lucas 22,32].
Como líder, Pedro é o destinatário da revelação de que os gentios podiam entrar na Igreja [Atos 10,28], é o primeiro a pregar no dia de Pentecostes [Atos 2,14], é também quem toma a iniciativa na necessidade de completar o grupo de doze [Atos 1,15-22], é ele que fez a primeira cura milagrosa após a ressurreição [Atos 3,6-7] e outros feitos.
Em suma, podemos dizer que a forte liderança de Pedro no Novo Testamento não foi apenas o exercício de seu cargo, mas seu estilo de exercício, foi através da liderança do colégio apostólico.
Dessa forma aconteceu com os ministérios dos bispos de Roma, vemos que durante os primeiros cinco séculos nenhum bispo usurpa da primazia concedida a ele, senão atribui-la segundo o costume antigo, ao bispo de Roma. As objeções freqüentes feitas por alguns protestantes (porque a maioria nega categoricamente tal primazia) quanto a primazia petrina e a alegação de que ela tenha sido apenas de honra e não de jurisdição não pode ser sustentada devido ao grande número de evidências históricas existentes. Os papas desde os dias dos Apóstolos, não só continuaram a exercer o mais alto tribunal no Ocidente, mas mesmo no Oriente até o grande cisma, no século IX.
Entretanto, já nos primeiros séculos houve-se que exercer esse ofício de diferentes maneiras, e não apenas sob forma de liderança, mas mesmo para disciplinar comunidades rebeldes (como Clemente de Roma para disciplinar a comunidade de Corinto por ter deposto seus pastores), ou servindo como um tribunal supremo e final de recursos.
Um exemplo deste exercício da supremacia judicial temos-no precisamente nestes recursos, já que nunca se recorre de um superior para um tribunal inferior. Na história da Igreja encontramos apelos ou recursos em todos os lugares (por bispos, patriarcas e até mesmo heréticos) à Igreja de Roma. Muitos exemplos poderiam ser citados, mas alguns serão suficientes:
1) Durante o pontificado do Papa Victor (189 dC – 198 dC), há uma controvérsia sobre as diferenças entre a Igreja de Roma - a qual seguiam quase todas as demais igrejas – e as Igrejas da Ásia, quanto ao dia de celebração da Páscoa. São Policarpo foi à Roma com mais de 80 anos de idade para reivindicar que a data em que se celebra a Páscoa era uma tradição que ele tinha aprendido do prório São João. Por isso, o Papa e São Policarpo mantiveram a paz.
Posteriormente, quando o problema voltou a agravar-se o Papa Vitor ameaçou excomungar àqueles que não observavam a data segundo a Igreja, e agora intervém São Irineu, que após reconhecer seu compromisso com a observância de Roma, pediu ao Papa para excomungá-los pelo apego que mostravam às suas antigas tradições, uma vez que não se tratava de uma questão de doutrinária. O Papa aceitou não excomungá-los e, eventualmente, acabaram por aceitar a disciplina romana.
2) Dionísio, bispo de Roma, por volta da metade do terceiro século, tendo ouvido que o Patriarca de Alexandria estava errado em alguns pontos da fé, exige uma explicação e o patriarca, em obediência ao seu superior imediato, acata prontamente sua ortodoxia.
3) Santo Atanásio, patriarca de Alexandria, apela no século IV ao Papa Júlio I, a partir da decisão proferida contra ele pelos bispos orientais. O Papa reverte a decisão do conselho Oriental e retorna Atanásio a sua sede.
4) São Basílio, Arcebispo de Cesaréia, no século IV também recorre à proteção do Papa Dâmaso.
5) São João Crisóstomo, Patriarca de Constantinopla, apela no início do século V ao Papa Inocêncio para uma reparação de injustiças infligidas a ele por vários prelados da África Oriental e da imperatriz Eudoxia de Constantinopla.
6) São Cirilo recorreu ao Papa Celestino contra Nestório pela chamada heresia Nestoriana; Nestório que não era tolo e sabia a quem recorrer, também apelou ao Papa, que ficou do lado de Cirilo.
7) Os Concílios de Cartago e Milevis celebrados pelos bispos Africano, inclusive Santo Agostinho, pedem a aprovação do Papa aos seus editais. Quando o Papa responde, S. Augustinho se alegra e dá a causa para encerrada. Em numerosas cartas sustenta que nada é mais claro do que a opinião da Sé Apostólica.
8) Quando Eutiques começou a pregar a doutrina conhecida como “monofisitas” a heresia foi condenada por Flaviano (bispo de Constantinopla), durante um sínodo. Ele apelou então ao Papa Leão (De Eutiques Papa Leão Ep 21), ao qual Pedro Crisólogo (bispo de Ravenna) escreve a Eutiques para prestar obediência ao Papa: “Nós te exortamos, irmão honrado, que obedientemente ouças o que foi escrito pelo abençoado Papa de Roma, do bem-aventurado Pedro, que vive e preside na sua própria cadeira. Pois nós, em nosso zelo pela paz e pela fé, não podemos decidir sobre questões de fé sem o consentimento do Bispo de Roma “[De Pedro Crisólogo ao Papa Leo, Ep 25]
9) Para julgar a causa de Eutiques em 449 tentou-se realizar um concílio ecumênico em Éfeso (convocado pelo imperador Teodósio II com a permissão do Papa Leão I). O conselho precedida Dióscoro (Patriarca de Alexandria), que apoiava Eutiques. Eutiques denuncia que a carta do Papa trazida pelos legados papais não havia sido lida, e após esta e outras irregularidades, o legado papal (Hilário) anulou a sentença em nome do Papa e abandonou o concílio.
Mais tarde, no Concílio de Calcedônia foi denunciado que Dioscoro tinha realizado um “concílio” (ecumênico) sem a Sé Apostólica, que nunca fora autorizado”, e que continuaram o Concílio após a saída dos legados papais.
O Papa Leão também havia recebido apelos de Teodoreto e Flaviano e tinha escrito para o imperador e a imperatriz que todos os atos do concílio eram inválidos. Excomungou todos os que haviam tomado parte nele e absolveu aqueles que haviam sido condenados (exceto Domnus de Antioquia) e foi assim que um concílio ecumênico anulado pelo Papa tornou-se conhecido como o “Concílio Latrocínio”.
10) No Concílio de Calcedônia, onde através da adopção de Canon 28, tetantava-se dar a Constantinopla o segundo lugar depois de Roma, pedia-se a aprovação papal para o referido Canon, e o mesmo patriarca escrevendo ao Papa, reconhece que a adoção dos processos dependiam de sua aprovação. O mesmo concílio totalmente reconheceu-o como o sucessor de Pedro e chefe da Igreja Católica.
Se todos esses esses apelos não significam o reconhecimento contínuo da própria jurisdição, o que mais poderiam significar?
Objeções Protestantes
Objeção 1: Cristo referiu-se a si mesmo ou à confissão de fé de Pedro como ‘a rocha’ sobre a qual iria construir a Igreja e não Pedro.
Se bem podemos dizer que sobre a fé de Pedro está edificada a Igreja, não podemos negar que Cristo também tenha se referido a Pedro como a rocha sobre a qual está construída a Igreja. Há de se levar em conta que nesse momento Cristo anuncia a mundaça do nome de Pedro para fazer um jogo de palavras “Tu és Pedro (Pedra) e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. Não faria sentido mudar o nome de Simão para Pedra para logo em seguida, referir-se à outra pedra que não Pedro.
A frase em grego diz “ταυτη τη πετρα” (“epi tautê tê petra”). Aqui “epi” significa “sobre” e “tautê Tê petra” significa “na mesma pedra”. Assim, a frase sem o ”tê” significaria apenas “sobre esta pedra”, mas com o ”tê” a construção gramatical força identificar a pedra à qual faz referência (sobre a qual será construída a Igreja), ou seja, a qual acaba-se de mencionar (Pedro). Assim, é Pedro e não outra pedra, a qual se refere Cristo como aquela sobre a qual Ele edificaria Sua Igreja.
Uma explicação é dada por Robert Sungenis:
“É importante notar que Jesus escolheu a frase aqui epi tautê tê petra (” sobre esta rocha “) em vez de a redação mais ambígua e epi tee roca (“ sobre a rocha ”) ou epi petra (sobre uma rocha). Utilizando o artigo definido ou indefinido, poderia parecer que Jesus se referia alguém mais além de Pedro, enquanto o demonstrativo adjetivo Tautê (‘esta’) é mais provável identificar a alguém em estreita proximidade com o substantivo gramatical “rocha”. A rocha única outra que se ilustra nas imediações é Petros (‘Pedro’), que é um nome que significa “Rocha»….” [Traduzido do comentário de Robert Sungenis em Jesus, Peter & the Keys, Butler, Dahlgren, Hess, pág. 23-24]
Tendo isto em conta faz pouco sentido que alguém pretenda interpretar que Cristo quis dizer “Tu és Pedro e sobre aquela outra pedra edificarei a minha Igreja”
Objeção 2: A palavra usada para Pedro (Petros) é diferente da palavra usada para se referir a pedra sobre a qual está construída a Igreja (Petra), assim Cristo não estava se referindo a Pedro como o Rocha.
Os protestantes costumam argumentar que a palavra usada no grego “Petros” refere-se a um “seixo” (pedra pequena), enquanto “Petra” refere-se a uma grande pedra ou rocha, mas há fortes razões para rejeitar esse argumento.
Primeiro, porque em grego koiné (a língua em que se econtram os escritos do Novo Testamento) ambas as palavras (Petros e Petra) eram sinônimos. Para se referir a uma pedra pequena há outra palavra grega “lithos”, que é muitas vezes usada nas Escrituras desta maneira. Um exemplo é em Mateus 15,46:
“Depois de ter comprado um pano de linho, José tirou-o da cruz, envolveu-o no pano e depositou-o num sepulcro escavado na rocha (petra), rolando uma pedra (lithos) para fechar a entrada. .”
No texto grego para a palavra “rocha” utiliza-se “Petra”, mas para “pedra” é usado “lithos” e não “Petra”.
Outro exemplo é 1 Pedro 2, 7:
“Para vós, portanto, que tendes crido, cabe a honra. Mas, para os incrédulos, a pedra (lithos) que os edificadores rejeitaram tornou-se a pedra angular, uma pedra (lithos) de tropeço, uma pedra de escândalo (petra) (Sl 117,22; Is 8,14). “
Aqui novamente se utiliza a palavra lithos para se referir a uma pequena pedra (aquele na qual se tropeça) e petra para uma rocha ou pedra grande.
Mais exemplos:
“E disse: «Se tu és o Filho de Deus, atira-te para baixo, porque está escrito, confiou os seus anjos, e em suas mãos eles te levarão, para que não tropeces em uma pedra (lithos) qualquer.»” [Mateus 4,6]
“Há alguém entre vós a quem um filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra (lithos).” (Mateus 7,9)
“Jesus disse-lhes:”A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se a pedra angular; isto é obra do Senhor, e é admirável aos nossos olhos (Sl 117,22)? “(Mateus 21, 42)
E assim, em cada texto onde a Escritura se refere a uma pedra utiliza-se a palavra “lithos”, enquanto que ao se referir a uma rocha usa-se “petra”, mas o mais importante é que a palavra Petros nunca é usada em toda a Escritura para referir-se a pequena pedra ou seixo, senão exclusivamente como um nome próprio, o nome de Pedro. Ao querer diferenciar no texto grego entre Pedro e a Rocha sobre a qual será construída a Igreja o autor poderia muito bem ter usado “Lithos” para Pedro, mas ele não o faz.
Leia em breve a continuação Parte II: ”Tu serás chamado de Cefas” - Saiba a origem e o significado do nome de Pedro.